The Lot
A chaise longue LC4 e o peso de uma marcação de fábrica preservada
Exemplar apresentado como Knoll International, Brasil, c. 1960, com couro de época e oxidações pintadas, foi vendido por R$ 30 mil.
10 de setembro de 2026 · 4 min de leitura
O dado mais incomum desta peça não está na silhueta curva que a tornou reconhecível, e sim numa frase em caixa alta ao fim da descrição do lote: "preserva assinatura e número de série". Em um móvel de edição industrial, produzido aos milhares ao longo de décadas, é exatamente esse tipo de marcação que separa um exemplar datável de uma cópia sem origem declarada — e é sobre ela que a leitura desta chaise longue precisa começar.
O lote 11 do Leilão Nosso Passado Mobiliário foi apresentado como uma chaise longue LC4, projeto creditado no catálogo a Charlotte Perriand, Le Corbusier e Pierre Jeanneret, em exemplar atribuído à edição Knoll International e situado no Brasil, por volta de 1960. A descrição detalha base em metal esmaltado, armação da espreguiçadeira em metal tubular cromado, percintas em tecido e almofada inteiriça revestida em couro de vaca informado como ainda original de época. Não foram informadas dimensões.
A composição do objeto depende inteiramente dessa divisão em duas partes independentes. A base esmaltada funciona como um cavalete estático, sobre o qual o corpo tubular cromado apoia-se sem fixação rígida, permitindo que o ângulo de reclinação seja ajustado pelo simples deslocamento da armação. O contraste entre o preto opaco da estrutura de apoio e o brilho do tubo cromado organiza visualmente essa separação: o que sustenta e o que se move pertencem, também na superfície, a materiais distintos. As percintas de tecido, tensionadas sob a almofada, sustentam o assento sem que a estrutura receba estofamento — o couro é um invólucro contínuo, não um revestimento aplicado a uma carcaça.
A chaise longue basculante concebida no ateliê de Le Corbusier com Pierre Jeanneret e Charlotte Perriand, no fim dos anos 1920, tornou-se um dos móveis mais reeditados do século XX, o que faz da identificação do fabricante e do período de produção a variável decisiva na leitura de qualquer exemplar. Neste caso, a descrição situa a peça na edição Knoll International e no Brasil, c. 1960, mas não transcreve o número de série nem descreve o formato da marcação, o que deixa a verificação dependente do exame direto do objeto.
A condição declarada merece atenção literal. O catálogo registra oxidações — e informa, entre parênteses, que foram pintadas — além de marcas de uso. Trata-se, portanto, de uma peça que já recebeu intervenção sobre a estrutura metálica, informação relevante justamente porque o cromado e o esmalte são as superfícies que envelhecem primeiro neste modelo. A menção ao couro como "ainda original de época" também é uma declaração do catálogo, não um laudo: nenhuma avaliação técnica de conservação foi apresentada, e a extensão das repinturas só pode ser dimensionada por exame presencial e especializado.
O resultado do pregão foi de R$ 30.000, valor informado pela casa como venda confirmada. Não há estimativa divulgada nos dados disponíveis, o que impede qualquer comparação entre expectativa e resultado, e a ausência de procedência, exposições ou bibliografia declaradas mantém o histórico de circulação do exemplar fora do alcance do texto.
Sobra, ao fim, o próprio objeto e o que ele carrega de verificável: um couro que envelheceu junto com a peça, um metal que já foi retocado e uma marcação de fábrica que o catálogo afirma estar preservada. É pouco para reconstruir a trajetória do móvel, mas é o suficiente para explicar por que, num modelo reeditado à exaustão, o número gravado importa tanto quanto a linha do desenho.
Ficha da obra
Artista: Charlotte Perriand, com Le Corbusier e Pierre Jeanneret (créditos conforme o catálogo)
Modelo: Chaise longue LC4
Edição: Knoll International (conforme o catálogo)
Origem e data: Brasil, c. 1960 (conforme o catálogo)
Materiais: base em metal esmaltado, armação em metal tubular cromado, percintas em tecido e almofada inteiriça revestida em couro de vaca
Marcas: preserva assinatura e número de série, segundo o catálogo
Condição declarada: oxidações (pintadas) e marcas de uso; couro informado como original de época
Lote: 11
Leilão: Leilão Nosso Passado Mobiliário
Casa: Nosso Passado Mobiliário
Data: 09/09/2026
Resultado: R$ 30.000 (resultado do pregão, informado como venda confirmada)
Nota de dados: não foram fornecidas dimensões, procedência, histórico expositivo, bibliografia, certificados nem laudo independente de conservação. As informações sobre materiais, datação, fabricante, marcação e condição reproduzem a descrição do catálogo da casa e não constituem verificação independente.



